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sábado, 13 de novembro de 2021

A Lava Jato vai às urnas

"A entrada de Sergio Moro na corrida presidencial ameaça Bolsonaro e põe água no chope da terceira via."

“Moro, é verdade que você abandonou o Brasil?”. Teria sido este o atilho, vindo de um estudante no exterior, que inspirou Moro a finalmente aceitar fazer política na arena que lhe cabe. A anedota foi contada por ele na quarta-feira 11, durante sua filiação ao Podemos.

No discurso, que se estendeu por 49 minutos, Moro defendeu a família, a verdade, a ciência, a imprensa, as privatizações e a justiça. Cantou loas a uma ‘sólida formação moral e cidadã’. Condenou a prisão em segunda instância, o foro privilegiado e a reeleição (espertamente, omitiu os privilégios de seus antigos pares de toga). E encerrou com outro clichê: ‘Ninguém irá roubar o futuro do povo brasileiro’. 

O ex-juiz dedicou os primeiros momentos no palco a rebater os chistes sobre a própria voz. "Alguns até dizem que não sou eloquente e não gostam da minha voz... Mas, se eventualmente eu não sou a melhor pessoa para discursar, posso assegurar que sou alguém em que vocês podem confiar." A voz anasalada está para Sergio Moro como a gagueira está para Joe Biden.

A demorada menção aos próprios dotes vocais faz lembrar de uma reportagem recente do UOL, a qual interlocutores anônimos disseram considerá-lo ‘muito cru’ para o jogo da política. Moro terá dificuldades em uma disputa que, diferentemente de 2018, será dominada pela economia e não pela polarização e pelo antipetismo. Segundo a mais recente pesquisa Genial/Quaest, apenas 9% dos brasileiros consideram a corrupção o principal problema do país. Como fala pouco e mal sobre os temas-chave das próximas eleições, ele tem sido pajeado por nomes como Persio Arida e Affonso Pastore.

Seu discurso de filiação mencionou fome, pobreza, inflação, juros, pandemia, Amazônia, economia verde. Como solução para estes problemas, Moro propôs lugares-comuns como a criação de uma ‘força-tarefa de erradicação contra a pobreza’, composta por ‘servidores e especialistas das estruturas já existentes’  que superaria o “eleitoreiro” Bolsa Família e a transformação das escolas públicas brasileiras em unidades ‘tão boas quanto as escolas privadas’. 

Se falta estofo a Moro para proteger o futuro do Brasil, como prometeu em seu discurso, lhe sobram condições para atrapalhar o destino de Jair Bolsonaro, roubando-lhe o lugar no segundo turno. Na mesma pesquisa Quaest, Moro aparece com 8% das intenções de voto e Bolsonaro com 21%. O fator Moro também prejudica outros postulantes da terceira via. Com ele no páreo, João Doria marca 2%. Eduardo Leite e Rodrigo Pacheco, apenas 1%.

Como lembra o cientista político Cláudio Couto, colunista desta Carta, as desavenças entre Moro e Bolsonaro têm mais a ver com disputa por espaço do que com diferenças de concepção política. Bolsonaro é desbragadamente fascista, avalia ele, já Moro está mais para um conservador autoritário.

Talvez por isso, o ex-juiz tenha preferido poupar o ex-patrão nesse início de jornada. Suas menções a ‘rachadinhas’, ‘orçamento secreto’ e ‘extremos’ foram tímidas se comparadas às saraivadas contra Lula e o PT. O petista, por sua vez, segue liderando com folga as pesquisas, amealhando quase 50% das intenções de voto totais em primeiro turno e vencendo todos os concorrentes no segundo.


                       Blog do França





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