Presidente critica paralisia do Conselho de Segurança, ingerência externa e tarifaço; fala sobre eleição brasileira e defende fim da escala 6x1.
O presidente Lula abriu nesta terça-feira (22) seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas com uma dura crítica à própria ONU. Disse que a organização vive seu momento mais crítico desde que ele ocupou pela primeira vez a tribuna, em 2003, e está falhando em uma de suas principais missões: impedir guerras. Ao longo do pronunciamento, também criticou interferências externas em eleições e declarou que o Brasil "não cabe no quintal de ninguém".
"O sentimento que me move hoje é o da indignação", afirmou. Segundo Lula, a credibilidade da ONU "nunca esteve tão baixa" e sua capacidade de proteger os mais vulneráveis "nunca foi tão pequena". Ele atribuiu parte da crise ao imobilismo do Conselho de Segurança e lembrou que, já em 1946, o Brasil alertava para os riscos do poder de veto das grandes potências.
"Esse vício de origem da Carta da ONU conferiu às grandes potências o privilégio da insensatez", disse. Para o presidente, as concessões à "lei do mais forte" passaram dos limites. "A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política."
"Quintal de ninguém"
Ao tratar da América Latina, Lula falou em "recrudescimento de tentações hegemônicas" e fez uma das declarações mais fortes do discurso: "O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento". Em nenhum momento ele citou o nome dos Estados Unidos ou do presidente Donald Trump, a quem ontem acusou de agir como "imperador".
O presidente brasileiro disse que a democracia está "novamente em xeque", criticou a "ingerência externa em processos eleitorais" e a divisão do mundo em zonas de influência. Defendeu que a Venezuela decida seu próprio destino, criticou a Nicarágua por impedir a oposição de disputar eleições e condenou o embargo econômico contra Cuba.
O presidente voltou ao tema da soberania ao falar sobre crime organizado. Afirmou que o Brasil não vai "terceirizar" a defesa de suas fronteiras e cobrou cooperação internacional contra o tráfico de armas e a lavagem de dinheiro.
"Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime", declarou. Segundo Lula, essa é a orientação de uma proposta entregue por ele ao presidente dos Estados Unidos.
Eleição brasileira
A eleição de 4 de outubro ganhou destaque no encerramento do pronunciamento. Lula disse que os brasileiros não irão apenas escolher presidente, governadores e parlamentares.
Vão decidir entre democracia e negacionismo. Se o Brasil vai avançar rumo a um futuro de mais oportunidades ou regressar a um passado de exclusão", afirmou.
Ele previu um pleito "transparente e competitivo", com ampla liberdade de expressão, mas disse que há quem abuse dessa liberdade "para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país".
Também alertou para redes de desinformação durante a campanha. "Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros", disse.
Guerras e diplomacia
Sobre os conflitos internacionais, Lula acusou o governo de Benjamin Netanyahu, de Israel, de praticar "genocídio" contra palestinos em Gaza e, no mesmo trecho, condenou os "atos terroristas do Hamas" contra civis israelenses. Defendeu a solução de dois Estados e criticou pressões contra o Tribunal Penal Internacional.
Ao tratar da guerra entre Rússia e Ucrânia, afirmou que "não haverá vencedores no campo de batalha" e que a diplomacia é a única saída. Citou o Grupo de Amigos da Paz, articulado por Brasil e China, como iniciativa voltada ao diálogo.
Tarifas, minerais e tecnologia
Na área econômica, Lula disse que a Organização Mundial do Comércio "respira por aparelhos" e criticou o uso de tarifas como instrumento de "coerção e chantagem". Mais adiante, mencionou o "tarifaço contra nossa economia" e afirmou que, apesar dele, o Brasil deverá bater novo recorde de exportações neste ano.
Também afirmou que o acesso aos minerais críticos e terras raras do país deverá ter como contrapartida geração de valor no Brasil, transferência de tecnologia e abastecimento de setores estratégicos nacionais.
Outro alvo foram as grandes empresas de tecnologia. Lula classificou como uma "omissão histórica imperdoável" deixar de regulamentar big techs e inteligência artificial e criticou o que chamou de "tecno-oligarcas" interessados em um ambiente digital "sem regras nem transparência".
Também atacou as plataformas de apostas, afirmando que a indústria das bets "transforma o vício em lucro", e defendeu o Pix. "Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso Pix", disse.
Fim da escala 6x1
Na parte dedicada ao trabalho, Lula defendeu o fim da escala 6x1 para garantir dois dias livres por semana. A proposta, que já passou pela Câmara e pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, aguarda análise dos senadores no Plenário.
"O trabalhador precisa de tempo para descansar, se qualificar e conviver com a família", afirmou. Segundo ele, a mudança também ajudaria a reduzir a sobrecarga doméstica que ainda recai sobre as mulheres.
Lula encerrou retomando a crise das Nações Unidas. Depois de lembrar o papel da organização na descolonização, na defesa dos direitos humanos e no acolhimento de refugiados, disse que a ONU precisa recuperar vontade política para voltar a ser "o templo da paz".
Esta foi a décima vez que Lula discursou na abertura da Assembleia Geral. Ele ocupou a tribuna da ONU em 2003, 2004, 2006, 2007, 2008, 2009, 2023, 2024 e 2025. Desde 1955, o Brasil tradicionalmente é o primeiro país a falar no debate geral, seguido pelos Estados Unidos.
Agenda em Nova York
Na segunda-feira (21), Lula se reuniu com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e com o senador americano Bernie Sanders.
Ele também concedeu entrevista à CNN, na qual fez críticas a Donald Trump e afirmou haver "indícios de interferência" dos Estados Unidos no processo eleitoral, inclusive relacionados à inteligência artificial.